Polícia Civil prende servidor público investigado por feminicídio em Boa Vista
A prisão ocorreu na tarde desta sexta-feira (18), no bairro Buritis, após investigação apontar simulação de acidente para ocultar agressão / Foto: Ascom/PCRR /
A PCRR (Polícia Civil de Roraima), por meio da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), prendeu na tarde desta sexta-feira (18), no bairro Buritis, zona Oeste de Boa Vista, o servidor público E.O.S., de 44 anos, investigado pelo feminicídio da técnica em radiologia Michele Soares de Deus, de 48 anos.
A investigação foi aprofundada após familiares apresentarem novas informações sobre as circunstâncias da lesão que levou Michele à morte. Em poucos dias, a Polícia Civil reuniu depoimentos, realizou diligências e obteve prova técnica que confrontou a versão inicialmente apresentada pelo investigado. O pedido de prisão preventiva foi feito na quinta-feira (17), deferido pela Justiça e cumprido nesta sexta-feira.
Michele sofreu um grave traumatismo cranioencefálico no dia 27 de julho e foi internada no HGR (Hospital Geral de Roraima), onde permaneceu por aproximadamente 40 dias, em tratamento intensivo. A vítima morreu no dia 7 de setembro, em decorrência dos ferimentos.
No dia 2 de setembro, ainda durante a internação da vítima, uma irmã de Michele procurou o PCE (Plantão Central Especializado) e registrou boletim de ocorrência após conversar com familiares sobre as circunstâncias do caso. Na ocasião, ela relatou que E.O.S. havia informado que Michele teria sofrido uma queda da cama, dentro da residência, e batido a cabeça. A familiar, no entanto, já manifestava desconfiança de que a gravidade das lesões apresentadas pela vítima não era compatível com uma simples queda da cama, motivo pelo qual pediu a apuração detalhada dos fatos.
Conforme o relato registrado no boletim de ocorrência, a família havia sido informada de que Michele apresentava um quadro grave de traumatismo cranioencefálico, com lesões de grande gravidade, o que aumentou a suspeita sobre a versão apresentada pelo investigado.
No dia 11 de setembro, uma filha de Michele apresentou novos fatos aos autos, ainda no PCE. Foi nesse momento que surgiu uma informação diferente sobre a dinâmica da lesão: Michele e E.O.S. teriam participado de uma festa e, durante uma discussão no local, o investigado teria empurrado a vítima. Michele teria caído e batido a cabeça no pedal de uma motocicleta, ficando desacordada.
Ainda conforme as informações apresentadas à Polícia Civil, após a queda, E.O.S. teria colocado Michele em um veículo e informado que a levaria para receber atendimento médico. No entanto, segundo o relato apresentado à investigação, ele não levou a vítima ao hospital naquela ocasião.
Até então, a versão apresentada pelo investigado à família era a de que Michele havia sofrido um acidente. Conforme os relatos registrados no boletim de ocorrência, E.O.S. teria afirmado que encontrou a esposa caída e inconsciente no quarto do casal, na manhã seguinte aos fatos. Ao explicar as circunstâncias, mencionou a possibilidade de uma queda da cama e também teria apresentado posteriormente a hipótese de que Michele havia escorregado em um igarapé no interior do Estado.
Com a apresentação dos novos fatos, o caso permaneceu inicialmente sob apuração no PCE, onde foram realizadas oitivas e coletadas as primeiras informações. No dia 14 de setembro, a investigação foi encaminhada à DEAM para aprofundamento.
A partir daí, a delegada Carla Gabriella Muniz Paulain e a equipe da DEAM passaram a realizar uma série de diligências para reconstruir a dinâmica dos fatos e confrontar as diferentes versões. Foram analisados depoimentos, documentos médicos e demais elementos relacionados ao atendimento da vítima.
Entre as providências adotadas esteve a realização de perícia médico-legal indireta do corpo, com reconstrução em 3D da lesão em crânio da vítima.
O procedimento foi realizado pelo perito oficial médico-legista Esdras Fagundes, do IML (Instituto de Medicina Legal). A análise identificou características da lesão compatíveis com impacto contra objeto rígido, saliente e de superfície limitada. O resultado técnico mostrou-se compatível com a dinâmica apresentada durante a investigação e incompatível com a hipótese de uma simples queda no chão.
Ainda segundo a delegada, a prova técnica, associada aos depoimentos colhidos durante a investigação, permitiu à equipe da DEAM confrontar a versão inicialmente apresentada pelo investigado e avançar na reconstrução da dinâmica da agressão.
“Quando recebemos as novas informações, passamos a verificar cada detalhe e confrontar as versões apresentadas com os elementos de prova. A perícia indireta foi fundamental para esclarecer a natureza da lesão e verificar a compatibilidade com a dinâmica relatada”, explicou a delegada Carla Gabriella Muniz Paulain.
Após três dias de aprofundamento da investigação pela DEAM, com coleta e análise dos elementos de prova, a delegada representou pela prisão preventiva de E.O.S. na quinta-feira, 17 de setembro. A medida foi deferida pela Justiça e o mandado foi cumprido no final da tarde desta sexta-feira (18).
Após ser preso, E.O.S. foi conduzido à sede da DEAM, onde foi interrogado. Durante o procedimento, exerceu o direito constitucional de permanecer em silêncio. Ele será apresentado neste sábado, 19, em audiência de custódia.
Para a delegada Carla Gabriella Muniz Paulain, o caso exigiu uma investigação detalhada e rápida, especialmente diante da necessidade de confrontar a versão inicialmente apresentada com os novos elementos trazidos pelos familiares.
"Foi um trabalho de reconstrução dos fatos. Nós tínhamos uma versão apresentada pelo investigado e precisávamos confrontá-la com aquilo que os demais elementos de prova demonstravam. A prova técnica, construída a partir dos exames médicos, foi fundamental para esclarecer a dinâmica da lesão e desmontar uma versão criada para ocultar o que realmente aconteceu”, explicou a delegada Carla Gabriella Paulain.
DA REDAÇÃO




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