O plano é coordenado pela Funai, em parceria com o Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB e o Ministério dos Povos Indígenas, e conta com a participação de pesquisadores indígenas da TI Yanomami / Foto: Divulgação/Funai /
A construção do Plano de Recuperação Ambiental da Terra Indígena Yanomami (TIY) avança com a etapa de campo que ocorre entre 28 de novembro e 4 de dezembro na região do Paapiu e Parafuri. O trabalho dá continuidade às ações realizadas nas regiões do alto e baixo Mucajaí, em agosto, e à segunda etapa realizada de 11 a 22 de outubro nas regiões de Xitei e Homoxi, em Roraima.
A iniciativa é coordenada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em parceria com o Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), e conta com a participação de pesquisadores indígenas da TI Yanomami.
O plano busca orientar o Estado brasileiro e instituições parceiras na adoção de ações contínuas e estruturadas para lidar com os impactos deixados pelo garimpo ilegal nas últimas décadas e promover a recuperação ambiental da TI, de acordo com os conhecimentos tradicionais, pensamentos e orientações dos Yanomami e Ye’kwana.
A construção do plano é guiada pela participação direta das comunidades, que se dá tanto por meio do trabalho realizado pelos pesquisadores indígenas, junto às suas comunidades, quanto pelas etapas de campo com a equipe de pesquisadores não indígenas, que realizam reuniões junto às comunidades mais afetadas pelo garimpo na TIY.
A coordenadora de Conservação da Biodiversidade e Recuperação Ambiental da Funai, Nathali Germano, explica que a construção do plano teve início em maio, a partir da realização de uma oficina com lideranças indígenas e instituições parceiras e, agora, avança com as visitas in loco.
"Esse trabalho de campo junto às comunidades tem sido fundamental para a construção participativa do plano e para que esse instrumento reflita a realidade e os anseios dos indígenas. Nós conversamos com as comunidades para tentar entender melhor os problemas que foram trazidos pelo garimpo e para pensar conjuntamente em medidas para lidar com esses impactos, as quais devem abranger não só questões ecológicas e ambientais, mas, também, sociais, econômicas, culturais e espirituais."
A equipe, composta por pesquisadores indígenas e não indígenas, percorre locais degradados pela atividade garimpeira. "Realizamos visitas em algumas cavas desativadas para ver como está acontecendo a regeneração natural nessas áreas, identificar quais espécies estão voltando, quais estão dominando, se há indícios de circulação de animais, observar como está o solo, como estão os lagos, igarapés e rios e para pensar estratégias de como acelerar esse processo da regeneração. Toda essa discussão é feita junto com as comunidades, tanto dos problemas quanto das soluções", complementa Germano.
Durante a permanência na região de Xitei e Homoxi, as equipes realizaram reuniões comunitárias, caminhadas de reconhecimento e registros de áreas afetadas, observando a regeneração natural e a reocupação dos espaços. Ao conduzir o grupo pelas cavas de garimpo, o pesquisador indígena Genivaldo Krepuna observou a dificuldade de regeneração onde há “curimã” - nome Yanomami dado ao solo revirado e misturado a pedras, areia e resíduos das máquinas usadas para retirada do ouro.
Ele explica que, nesses locais, “as plantas não nascem bem; os garimpeiros desviaram rios, afastaram caça e destruíram matas”, além de deixarem “restos de metal e de máquinas”. Para Genivaldo, esse é um trabalho que só pode ser conduzido traduzindo o conhecimento ambiental para a língua Yanomami, para que toda a comunidade compreenda o processo de recuperação e decida coletivamente como agir.
Catarina Yanomami, moradora da comunidade Xereu II, reforçou o sentido de resistência local. “Eu sou moradora daqui e eu protejo essa minha terra”, afirmou, lembrando como a atividade garimpeira alterou toda a relação com os rios e com a comida. “Na época do garimpo, acabaram camarão, peixe, caça”, contou. Por isso, a comunidade afirma que não quer “mais invasores entrando na floresta”, reivindicando apoio do Estado e das instituições que trabalham no território para recompor o equilíbrio ambiental que sustenta a vida dos Yanomami.
A recuperação ambiental, segundo as lideranças, é também recuperação do direito de viver com tranquilidade. Como enfatizou o professor de Homoxi, Maurício Yanomami, o garimpo deixou “cicatrizes que nunca vão desaparecer sozinhas” e que afetam diretamente a vida cotidiana. Ele explica que o plano representa uma oportunidade de impedir novos ciclos de destruição. “Não quero que os invasores voltem; queremos melhorar a vida e garantir qualidade de vida para o povo Yanomami”.
Para o coordenador técnico-científico da Universidade de Brasília (UnB), Maurice Nilsson, o plano só terá sucesso se for construído junto com os Yanomami, pois o conhecimento e a experiência deles são a base do trabalho. “Pensar um plano de recuperação ambiental para essa terra aqui, sem os habitantes, seria impensável, e poderia resultar num novo impacto. É muito mais sensato a gente pensar e criar esse plano de forma participativa, de modo que os próprios Yanomami possam dizer o que é necessário fazer, o que é preciso pensar e agir para que essa terra volte a ser a terra como eles gostavam que era."
Maurice Nilsson reforça que a construção é feita por meio da escuta em língua Yanomami, respeitando o modo de conduzir decisões, os tempos das conversas e o papel dos xamãs e pajés na relação com a floresta, pois são eles que conversam com os espíritos que cuidam dos ciclos da vida e da saúde da terra.
Cronograma
O plano tem um cronograma que integra o conhecimento técnico à sabedoria ancestral. Segundo Nathali Germano, a próxima etapa crucial será o Encontro de Pajés, previsto para o primeiro semestre de 2026, uma demanda das próprias comunidades que reconhecem o papel dos xapiri na cura da floresta. "O trabalho dos pajés é fundamental para recuperar a terra-floresta na visão dos povos que aqui vivem."
Em 2025, o plano será finalizado e validado, tendo como objetivo ajudar a terra floresta a se recuperar das feridas que o garimpo deixou para que os povos da Terra Indígena Yanomami possam voltar a ter caça, peixes, frutos, palha, cipós, madeiras em abundância e possam voltar a viver livres e melhor" complementa Nathali Germano.
FONTE: PORTAL FUNAI

