Player
Tocando Agora
Carregando...

UIRAMUTÃ PEDE SOCORRO! Garimpo ilegal transforma Urucá em cachoeira de lama

Publicada em: 25/07/2026 15:36 -

As imagens da cachoeira derramando lama contaminada por mercúrio é a prova de que a garimpagem ilegal ganhou força na região / Fotos: Divulgação /

As imagens do que antes era uma das cachoeiras mais lindas do Brasil derramando lama tóxica ao invés da água cristalina de antes, chocam o mundo. Trata-se da cachoeira do Urucá, no município de Uiramutã, a Nordeste de Roraima, dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

São crimes ambientais gravíssimos, como a destruição do meio ambiente, usurpação de bens da União, pesquisa/lavra mineral sem autorização, além da formação de organização criminosa, como se viu recentemente na Terra Indígena Yanomami.

Mas o que muitos não sabem é que esses crimes ambientais de proporções avassaladoras não se resumem à Urucá, mas também atingem outras maravilhas do mesmo município, como a cachoeira Sete Quedas, o banho do Urucazinho e as corredeiras do Paiuá, só para citar alguns exemplos.

Problema antigo

Uma rápida pesquisa na internet revela que esse problema da garimpagem ilegal na região de Uiramutã remonta de 1950, quando as primeiras invasões foram documentadas. Garimpeiros se instalaram próximo a malocas indígenas, marcando o início de ocupações não indígenas em áreas tradicionais.

Entre os anos 1970 e 2000, a região foi palco de conflitos durante o processo de luta pela demarcação. Relatos históricos mencionam garimpo e extração mineral como parte das pressões sobre os territórios Macuxi e Wapichana. A criação do município de Uiramutã envolveu disputas que tentaram "liberar" áreas para exploração econômica.

Em 2005 finalmente o Supremo Tribunal Federal confirmou demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, com 19 condicionantes. Como resultado disso, houve a expulsão muitos não indígenas (principalmente arrozeiros), mas o garimpo ilegal conseguiu se manter ativo, apesar de em menor escala.

A partir de 2009, e foco passou a ser Urucá. Eu mesmo flagrei um acampamento garimpeiro há cerca de 300 metros da cachoeira. Eu trabalhava na Assembleia Legislativa e fomos a Uiramutã em uma ação da Casa Legislativa. Após a conclusão dos trabalhos, decidimos conhecer a cachoeira do Urucá e, ao chegarmos ao local, nos deparamos com uma barraca coberta com lona azul e equipamentos geralmente utilizados por garimpeiros. Ninguém foi encontrado no local, mas havia indícios de uso recente.

Pedi ao colega Luiz Palhares que fizesse a foto e, de volta a Boa Vista, fiz a denúncia no meu site. Semanas depois, a Polícia Federal realizou operação na região. Houve prisão de garimpeiros ilegais e apreensão e destruição de equipamentos.

Os próprios indígenas exploram minerais

Entre os próprios indígenas, existe a cultura da lavra garimpeira de forma artesanal. Na região da Raposa Serra do Sol, o foco não é apenas o ouro, mas também o diamante, que também é abundante por aquelas terras. Quando fui a Uiramutã pela primeira vez, em janeiro de 1998, para o festejo de São Sebastião, o então prefeito Venceslau Braz me disse que, após uma chuva forte, era fácil encontrar ouro em pó no alto de qualquer uma das montanhas que circundam a sede do município.

Em outra ocasião, um tuxaua de uma das comunidades indígenas do município me confidenciou que sua principal fonte de renda era o garimpo, acrescentando que trabalhava com diamante. "O diamante tem mais valor. A gente nem liga pra ouro aqui", disse ele à época.

Escalada recente

O garimpo ilegal ganhou escala significativa a partir de 2019 (com a posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, que defendia abertamente a atividade ilegal), com relatos de centenas a milhares de invasores. Lideranças indígenas e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) denunciaram invasões em comunidades como Urucá, Napoleão, Tarame, Raposa I e II, Água Fria e áreas do Rio Maú.

Recentes operações da Polícia Federal são prova da intensificação do garimpo ilegal na Raposa Serra do Sol. Apesar disso, os garimpeiros ilegais que imigraram da Terra Yanomami, não se intimidam:

 

Impactos ambientais

O uso de maquinário pesado (escavadeiras, moinhos), explosivos e aliciamento de jovens indígenas (incluindo condições análogas à escravidão) resultam em impactos ambientais graves: poluição de rios, igarapés e cachoeiras com lama e rejeitos, devastação da vegetação e contaminação especialmente por mercúrio.

A contaminação por mercúrio é um problema grave de saúde pública, frequentemente causado pela inalação de vapores industriais ou ingestão de peixes contaminados (metilmercúrio). O metal é bioacumulativo e altamente tóxico, atacando principalmente o sistema nervoso central, rins e pulmões.

Mas a atividade criminosa na Raposa Serra do Sol ainda tem chance de ser controlada para que não ocorra na região a tragédia humanitária que aconteceu com a Terra Yanomami. Basta que as autoridades competentes (Ministério Público Federal, Polícia Federal, Ibama e Funai) façam sua parte.

WIRISMAR RAMOS - da Redação (e-mail: opinativa.net@gmail.com)

Compartilhe:
COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...